Homem que é homem não ajuda. Participa.

Em tempos de discurso sobre igualdade entre os sexos, quando se trata de cuidados com o filho e manutenção do lar, talvez ainda haja dois pesos e duas medidas. Para aprofundar o assunto, nossa convidada é a mãe, blogueira e jornalista Mônica Brandão, do Comer para crescer.

“Minha mulher é super companheira! Ajuda em tudo da casa mesmo depois de chegar cansada do trabalho. Divide as tarefas domésticas, troca fralda, dá banho, brinca com nosso filho. E ainda é atenciosa comigo.”

Você já ouviu um homem citar a frase acima? Provavelmente não. Por um desses mistérios da humanidade, mesmo estando bem longe do tempo das cavernas, ainda achamos que cuidar dos filhos e da casa é uma tarefa feminina. Daí as espantosas frases que escutamos por aí: “meu marido ajuda muito, faz até as papinhas” ou “ele é muito meu companheiro, fica com as crianças para eu dormir”. Como assim dar tanto crédito para algo que deve ser item de fábrica? (usando um termo que o Caio cunhou). E se a mulher não tem essa peça, sofre recall? Homem que é homem não ajuda. Participa.

Tudo bem que as meninas brincaram de casinha, de boneca e já crescem com uma teoria mais formada sobre o assunto. Mas não brincamos (tanto) de carrinho e estamos aí nas ruas como exímias motoristas. Então, qual é a desculpa? Preguiça masculina apoiada na premissa de que a mãe é um ser sagrado que sabe tudo sobre o filho? Ou a arcaica ideia de “você cuida da prole e eu ganho dinheiro”?

Especialistas e filósofos dedicados ao assunto apontam que a família do futuro será diferente. Envolverá não só os pais, mas parentes e amigos, como uma forma de dar mais atenção à criança e organizar horários. Mais ou menos o que você faz quando tem uma reunião e apela para a irmã cuidar do bebê. Ou aluga os avôs para o casal sair feliz. Pensando nisso e em um momento onde muitas crianças abandonadas ganham uma nova possibilidade de vida sendo adotadas por pais que casam com pais e mães que casam com mães, falar no papel de cada sexo fica até antiquado.

Família é um projeto. O que temos são pessoas cuidando de uma criança, de uma casa, da ideologia daquele grupo. E cada um dá o melhor de si, levando em conta seus defeitos e qualidades. A mãe não tem muita paciência para as lidas diárias com a criança e prefere trabalhar fora, mas o pai tem esse lado mais cuidadoso desenvolvido? Tá valendo. A mulher decide parar tudo e se dedicar ao filho e o marido topa arcar com todas as despesas da casa? Tá valendo. Os dois resolvem dividir tudo e todos? Tá valendo também. Tudo vale desde que cada um consiga dar o que mais gosta e o melhor de si para o projeto família – cuidando, é claro, para que todas as necessidades da criança sejam atendidas.

Agora, por mais vontade que os pais tenham de participar (e muitos ainda não têm), nada disso ocorre se a mulher não deixa. Depois do resultado positivo, a fêmea enlouquece com o poder que a maternidade dá e muitas simplesmente esquecem que o cara ao lado faz parte do projeto. Faça um teste rápido:

a) O pai participou do chá de bebê, esse momento tão divertido com os amigos, ou foi uma tradicional festinha só de mulheres?

b) O pai comprou pelo menos um macacão da preferência dele, mesmo que tenha sido um bizarro modelo do seu time campeão, sem a mulher rasgar a vestimenta em pedacinhos?

c) O pai conseguiu dar algum palpite na decoração do quarto, para a criança não viver afogada num mundo todo rosa ou todo azul?

Porque participar não é só ficar com o lado chato de encarar fraldas sujas ou madrugadas de cólica. É também se divertir com a porção gostosa. Criar um filho é uma experiência sagrada, profunda, revolucionária. E não deixar o marido participar disso é tirar dele uma das melhores oportunidades da vida. É ser muito egoísta.

Escrito por Mônica Brandão.
Twitter: @ComerCrescer e @MonicaBrandaoT
Blog: Comer para crescer

E você? Concorda? Discorda? Conte sua experiência, dê exemplos, coloque suas dúvidas :)

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18 thoughts on “Homem que é homem não ajuda. Participa.

  1. eu ri! eu sou uma dessas que super valoriza a participação do pai nos DEVERES na família. o meu pai foi assim tbm, e até onde eu sei foi mto participativo no papel dele. esse negócio de isso é coisa de mulher e isso é coisa de homem tá enraizado e é difícil quebrar em alguns casos. mas, as novas gerações estão aí pra mudar isso. amém! =P

    • Ih Aline, é difícil mesmo, viu? A gente tem a tendência de, na hora dos deveres, achar que precisa contar com todo mundo, não é só com o marido. Mas na hora de ficar fazendo dengo no bebê… ele é só nosso! Mas temos de ser justas se quisermos cobrar algo.
      beijos
      Mônica

    • Aline, eu costumo dizer que ser difícil é o primeiro sinal de que não é impossível. Vendo por esse lado, fica melhor, né?

      Mais do que as novas gerações, a nossa está aqui para isso também! Que tal criarmos nossos filhos relativizando esses papéis masculino e feminino tão exagerados?

      Beijo do Caio!

  2. Mônica, você tem razão quando diz que as mulheres muitas vezes se acham dona dos filhos, no sentido de só elas escolherem decoração do quarto, roupas, etc.
    Mas, penso que as coisas estão mudando no relacionamento pai-mãe-filho, com os pais mais presentes, mas ainda falta um bom caminnho pela frente pela igualdade de genero tambem dentro da família.

  3. Mônica, conheci seu outro blog hoje enquanto pesquisava receitas de papinhas e acabei aqui seguindo o link que você recomendou no último post. Achei seu texto excelente! Apesar de pensar como você, tenho um marido que ainda não participa muito. Nosso bebê ainda tem dois meses e ele ainda se assusta com os cuidados diários. Mas ele tem potencial. Aliás, nós dois temos porque bati o pé com as amigas e fiz um chá de bebê unissex. Meu marido se divertiu muito participando inclusive das brincadeiras. Concordo com você que nós mulheres devemos incentivar os maridos e vou continuar fazendo isso.
    abraços,
    Patrícia

    • Obrigada, Patricia. Tenha certeza de que você descobriu dois blogs muito legais para a fase que está vivendo. Volte sempre aqui e lá no Comer para Crescer. E continue a incentivar seu marido sim!! Mulheres que topam fazer o chá de bebê com a ala masculina presente já ganha dez pontos!
      beijos
      Mônica

    • Bem-vinda, Patrícia!

      Espero que, assim como no Comer para crescer, você encontre aqui um blog para refletir sobre essa maravilhosa jornada que está só começando :)

      Um abraço do Caio

  4. Mô, realmente você é a irmã inteligente!!! Brincadeira, você é bonita também, hahaha (Caio, é uma brincadeira entre a gente, depois a Mô te explica).
    Querida, o Cássio só pode participar porque você é uma das pessoas mais generosas que eu conheço. Incentivou não só ele como a família toda a participar dessa deliciosa experiência que é ver você ser mãe. Fico muito orgulhosa e vejo minhas sobrinhas crescerem cada vez melhores. Não são todas as mulheres que possuem a sua capacidade de doação e segurança para não ver o outro como inimigo. Muitas das minhas amigas não deixam o marido chegar perto e depois ficam reclamando. Parabéns pelo ótimo texto (como sempre, né?).
    E Caio, brigadão pela força que tem dado!
    bjs

    • Obrigado você, Mônica.

      Seu texto cumpriu com excelência a proposta da série: fazer uma leitura de nós, homens, a partir da visão de vocês, mulheres.

      Beijo do Caio e quando eu puder retribuir, não hesite em pedir!

  5. Ao ler o título do texto me veio logo situações que tenho presenciado como mãe e pensei que o texto me cairia como uma luva…o começo tá justo ‘como a boca do augusto’ (rsrs – só pra rimar!)! Não moro com o pai do meu filho por isso achei que ele poderia participar mais quando está por perto e sinto que ele só colabora quando eu peço, ou seja ele só ajuda e participa porque eu to ali o tempo todo pedindo…chato isso, né? vlw pelo texto!

    • Olá, Janaína!

      Acho legal observar se é uma falta de participação por não saber “como” fazer ou porque simplesmente não tem interesse.

      Muitos homens são educados desde pequenos para não demonstrar afeto e zelo, assim como aprendem aquele clássico papel de homem provedor que não participa da casa e da família. Aí é legal que a mulher seja educadora, ensinando aos poucos como fazer isso e reforçando para ele que a masculinidade segue intacta! hehehehe Também há o aspecto que a Mônica abordou tão bem aqui: a mulher precisa dar espaço para que isso aconteça.

      Mas, como disse no início, pode ser que ele simplesmente não queira, não se interesse. Aí vale a pena lembrar que isso devia estar implícito no comportamento dele quando o escolheu para ser o pai da sua filha. Ainda que eu ache o fim da picada um pai não participar da vida do filho, tento respeitar esses posicionamentos :P

      Um abraço do Caio!

  6. Cheguei aqui pelo “Comer para crescer” e não podia ir embora sem dar a minha opinião.
    Sou casada com um irlandês e posso te garantir que aqui na Europa o comportamento masculino perante a paternidade é muito diferente e para melhor.
    Meu marido (e de todas as minhas amigas) participam muito, acordam de madrugada para dar mamadeira, ficam com as kids para as mães terem um tempo livre e nada disso é imposto, é simplesmente natural, tanto que meu marido fica bobo quando eu conto como é o pai (na maioria das vezes) brasileiro.
    Meu pai sempre foi 10, mas não me lembro de 1 só vez que ele tenha me levado ao médico sem minha mãe, por exemplo…
    Sou muito orgulhosa dessa relação de troca entre meu marido e eu, no final, todo mundo sai ganhando, principalmente as crianças !!!

    • Que legal saber disso! Nunca pesquisei a respeito do comportamento de pais em outras culturas. Agora que você falou disso, acho que vou ser obrigado a dar uma olhadinha ao redor do globo hehehehe

      Abraço do Caio!

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